Comprar o primeiro imóvel é um dos maiores objetivos financeiros de muitas famílias brasileiras — e um dos mais complexos de executar. Entre poupança, financiamento, escolha do imóvel e custos escondidos, o processo tem dezenas de decisões que podem custar ou economizar dezenas de milhares de reais. Este guia cobre o caminho completo, do zero ao contrato assinado.
A primeira pergunta: comprar agora ou esperar?
Antes de qualquer passo prático, responda honestamente:
- Você tem 20–30% do valor do imóvel para entrada? (Financiar 90% tem custo muito alto)
- Você vai morar no imóvel por pelo menos 5 anos? (Abaixo disso, os custos de transação raramente se pagam)
- Sua renda é estável o suficiente para comprometer 25–30% com parcelas?
Se a resposta for não para qualquer dessas perguntas, continuar alugando e acumulando reservas provavelmente é a decisão financeiramente mais inteligente no curto prazo. Veja a análise completa em Comprar ou Alugar: a conta real.
Passo 1 — Calcule quanto você pode financiar
Os bancos limitam a parcela do financiamento a 30% da renda bruta familiar. Com renda de R$ 10.000, a parcela máxima é de R$ 3.000/mês. Use a Calculadora de Financiamento SAC vs Price para estimar o valor de imóvel que cabe nessa parcela.
Com a Selic em 14,75% em 2026, as taxas de financiamento imobiliário ficam em 10–12% ao ano (TR + spread). Num financiamento de R$ 400.000 em 360 meses:
- Sistema SAC: parcela inicial de ~R$ 4.500 (cai com o tempo)
- Sistema Price: parcela fixa de ~R$ 4.200
Passo 2 — Construa a entrada
A entrada mínima é 20% do valor (o banco financia no máximo 80% pelo SFH). Mas quanto mais você der de entrada, menor o custo total dos juros. Com 30% de entrada, a economia em juros ao longo de 30 anos pode ser de R$ 80.000–150.000 dependendo do valor do imóvel.
Onde guardar para a entrada:
- Tesouro IPCA+: para entrada em 3–5 anos. Protege contra inflação e oferece retorno real
- CDB ou LCI com vencimento no prazo: para entrada em 1–3 anos
- Tesouro Selic: para entrada em menos de 1 ano (liquidez máxima)
Use a Calculadora de Juros Compostos para projetar quando você terá a entrada acumulada.
Passo 3 — FGTS: entenda as regras
O FGTS pode ser usado para:
- Parte da entrada no financiamento pelo SFH (Sistema Financeiro de Habitação)
- Amortização do saldo devedor a qualquer momento
- Pagamento de até 80% das parcelas por até 12 meses (uma vez a cada 2 anos)
Condições: você não pode ter imóvel residencial no município onde trabalha ou reside, e não pode ter utilizado o FGTS para imóvel nos últimos 3 anos. O imóvel deve estar dentro dos limites do SFH (valor varia por região).
Passo 4 — Escolha o banco e a modalidade de financiamento
SFH (Sistema Financeiro de Habitação)
Para imóveis até R$ 1.500.000 (varia por região). Permite uso do FGTS, taxa limitada a TR + 12% ao ano. Os melhores bancos para SFH em 2026: Caixa (taxas mais baixas para imóveis populares), Bradesco, Itaú e Santander (para perfis de renda mais alta).
SFI (Sistema de Financiamento Imobiliário)
Para imóveis acima do limite do SFH. Não permite uso do FGTS. Taxas de mercado, sem teto regulatório.
Simulação em múltiplos bancos
Simule em pelo menos 3 bancos antes de decidir. A diferença de taxa entre bancos pode ser de 1–2 pontos percentuais ao ano — num financiamento de R$ 400.000 em 30 anos, isso representa R$ 80.000–200.000 em juros ao longo do contrato.
Passo 5 — Custos que a maioria ignora
Além das parcelas, prepare orçamento para:
- ITBI: 2–3% do valor do imóvel (pago na prefeitura na data da escritura)
- Registro e cartório: 1–1,5% do valor
- Avaliação do imóvel pelo banco: R$ 800–2.000
- Seguro habitacional: obrigatório no financiamento, incluso na parcela (MIP + DFI)
- Reformas e adequações: imóvel usado quase sempre precisa de alguma reforma
Para um imóvel de R$ 500.000, os custos de fechamento somam R$ 17.000–25.000 além da entrada.
Passo 6 — Avaliação e due diligence do imóvel
Antes de assinar qualquer documento:
- Verifique a matrícula no Cartório de Registro de Imóveis (certidão de ônus reais)
- Certidões negativas do vendedor (fiscal, trabalhista, federal)
- Habite-se e regularidade com a prefeitura
- Para imóvel usado: vistoria técnica com engenheiro ou arquiteto
- Para imóvel na planta: certidão negativa da construtora e análise do contrato
Passo 7 — Portabilidade de crédito imobiliário
Se você financiou quando os juros estavam altos e eles caírem nos próximos anos, a portabilidade permite migrar para outro banco com taxa menor — sem custo de ITBI ou cartório, mantendo o prazo. O banco atual tem prazo para cobrir a oferta do concorrente. É um direito garantido por lei e subutilizado.
Use a calculadora antes de decidir
A Calculadora Alugar ou Comprar faz toda a conta: parcela vs. aluguel equivalente, custo de oportunidade do dinheiro da entrada, tempo de break-even e retorno comparativo.
Perguntas frequentes
Comprar imóvel na planta é arriscado?
Tem riscos específicos: atraso na entrega, construtora em dificuldade financeira, qualidade abaixo do prometido. Mitigantes: verifique o histórico da construtora, prefira incorporadoras com Patrimônio de Afetação (o dinheiro do empreendimento fica separado do patrimônio da empresa) e leia todo o contrato antes de assinar.
Vale mais amortizar ou investir o dinheiro excedente?
Depende da taxa do financiamento. Se a taxa do financiamento é de 10% ao ano e você consegue 12–13% líquido em renda fixa, investir vence matematicamente. Se a taxa for acima de 12%, amortizar pode ser melhor. Use a calculadora para simular os dois cenários com suas taxas reais.
Consórcio imobiliário é uma boa opção?
Para quem não tem urgência e quer evitar juros. No consórcio, você paga taxa de administração (1–2% ao ano) mas não paga juros. O problema: pode levar anos para ser contemplado. Para quem precisa do imóvel nos próximos 2–3 anos, o financiamento é mais previsível.




